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Quem utiliza a Lei de Acesso à Informação (LAI) para solicitar informações de universidades públicas?

Posted on 13 de março de 202031 de julho de 2020 By cpop
Comunicação Política

Uma análise do perfil dos solicitantes da LAI na Universidade Federal do Paraná (UFPR) entre 2012 e 2019

Naiara Sandi de Almeida Alcantara e Deivison Henrique de Freitas Santos

 Há algumas décadas discute-se a necessidade de transparência em órgãos públicos. No entanto, somente a partir de 1990 é que esse debate ganhou força, sobretudo quando organizações internacionais, visando a diminuição da corrupção e abusos de poder, começaram a recomendar que os governos fossem mais transparentes e utilizassem práticas mais responsivas (accontability) (TEJEDO-ROMERO E ARAUJO, 2018). A transparência, então, é tema importante para que os cidadãos entendam melhor o funcionamento das políticas públicas e edifiquem sua confiança nas instituições do Estado. Diante disso, a transparência é uma forma de publicidade e accountability que pode favorecer a redução dos índices de corrupção e auxiliar na responsabilização de funcionários públicos envolvidos em atos infracionais (TEJEDO-ROMERO E ARAUJO, 2018). Todavia, Etzioni (2018) salienta que somente a transparência não é suficiente, sendo necessário, também, a vigência de regulamentações específicas.

No âmbito nacional, a regulamentação do acesso à informação concretizou-se em novembro de 2011, por meio da Lei n. 12.527, que dispõe sobre os mecanismos de acesso à informação no país e “regulamenta o direito constitucional de acesso a informações públicas”[1]. Dada a contemporaneidade da matéria, estudos que buscam compreender sua aplicação ainda são recentes (e, sobre alguns assuntos, escassos). Em razão disso, argumenta-se que expandir o conhecimento sobre os indívíduos que fazem uso de tal legislação para obter informações de universidades públicas se trata de atividade pertinente e que contribui para o aprofundamento dos estudos sobre o tema.

Após a implementação da Lei de Acesso à Informação (LAI), em 2012, foram criados, no Brasil, portais que facilitam o acesso à dados de órgãos públicos, como o Sistema Eletrônico do Serviço de Informação ao Cidadão (e-SIC)[2]. Entretanto, pouco se sabe sobre a divulgação dos mecanismos oferecidos pela LAI e da efetiva utilização destas ferramentas pela população em geral.

Levando em conta os aspectos supracitados, o texto apresentado analisa algumas variáveis do perfil demográfico dos indivíduos que solicitam informações através da LAI, especificamente de solicitações dirigidas à Universidade Federal do Paraná (instituição de ensino que figura entre as melhores do país, segundo o Índice Geral de Cursos (IGC), publicado pelo MEC em 2017). Pretende-se responder a seguinte questão: Qual o perfil dos indivíduos que solicitam informações da UFPR através de ferramentas disponibilizadas pela LAI?

Para a realização do trabalho, analisou-se a quantidade e o perfil dos solicitantes de informações direcionadas à instituição de ensino em tela. A metodologia de análise consiste na coleta de dados e na investigação descritiva das informações contidas nos relatórios do portal E-sic sobre a UFPR dos últimos oito anos (2012-2019). A partir desses dados gerou-se a seguinte tabela:

Tabela 1- Perfil dos solicitantes da LAI no período de maio de 2012 a dezembro de 2019 através do portal E-sic direcionados à UFPR

Fonte: Autores (2020), a partir dos dados disponíveis no portal E-sic.gov.

Em oito anos de análise a UFPR recebeu solicitações de 965 indivíduos. A Tabela 1 evidencia que as solicitações dirigidas à universidade em destaque são feitas, majoritariamente, por servidores públicos federais e estudantes. Além disso, a maioria dos pedidos são realizados por pessoas do sexo masculino, com ensino superior completo. Ao somar as porcentagens daqueles que já concluíram a graduação com aqueles que estão realizando cursos que necessitam, como pré-requisito, o diploma do ensino superior, verifica-se que mais de 80% dos solicitantes possuem alta escolaridade. Esses resultados demonstram que, pelo menos no estudo de caso supramencionado, a utilização da LAI para obtenção de informações é realizada por um grupo seleto de indivíduos pertencentes à camadas mais privilegiadas da população.


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Parte da explicação para isso pode estar relacionada à falta de divulgação da utilização dos serviços prestados pelos portais governamentais para a finalidade de sanar demandas pontuais, individuais ou coletivas. Mas o estudo ora apresentado carece de maior aprofundamento teórico-metodológico para a compreensão de outras variáveis que interferem no acesso aos canais digitais e nos mecanismos de transparência ofertados pelo poder público. Futuras investigações podem expandir as análises no que se refere a outras variáveis que contribuem para a melhor apreensão do perfil e dos fatores que influenciam a utilização das ferramentas hoje disponíveis para se obter informações de instituições ligadas ao Estado.


[1] Disponível em: < https://esic.cgu.gov.br/sistema/site/index.aspx >. Acesso em: 27 de fevereiro de 2020.

[2] Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2011/lei/l12527.htm >. Acesso em: 27 de fevereiro de 2020.

Referências

ETZIONI, Amitai. The limits of transparency. In: Transparency, Society and Subjectivity.  Palgrave Macmillan, Cham, p. 179-201, 2018.

SISTEMA ELETRÔNICO DO SERVIÇO DE INFORMAÇÃO AO CIDADÃO (e-Sic). Relatório de pedidos de acesso à informação e solicitantes. Disponível em: <https://esic.cgu.gov.br/sistema/Relatorios/Anual/RelatorioAnualPedidos.aspx>. Último acesso em: 27 de fev de 2020.

TEJEDO-ROMERO, Francisca; DE ARAUJO, Joaquim Filipe Ferraz Esteves. Determinants of local governments’ transparency in times of crisis: evidence from municipality-level panel data. Administration & Society, v. 50, n. 4, p. 527-554, 2018.

Tags:LAI Lei de Acesso à Informação Transparência UFPR Universidade Federal do Paraná Universidade Pública

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