Um estudo sobre o apelo retórico utilizado pelos presidenciáveis em seus programas de 2018

Daniela Neves e Naiara S. de A. Alcântara

Quando o Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral (HGPE) inicia, mesmo com o tempo mais curto – passou para 35 dias desde as eleições de 2016 –, é um momento que marca a campanha política e que o eleitor acessa um conteúdo que tem como objetivo convencer que determinado candidato é melhor que os demais (CERVI, 2010).

Neste convencimento de um candidato em disputa com os demais, os programas do HGPE são construídos com uma retórica composta por argumentação de natureza ficcional. A tentativa é de construir um mundo atual possível, igual ou um pouco diferente do mundo atual real e com base nessa projeção mostrar um novo e bom futuro possível (FIGUEIREDO et al., 1997). Alguns estudos da área de Comunicação Política no Brasil analisam como os candidatos à Presidência utilizaram esse espaço como estratégias de persuasão. Porto e Guazina (1999) utilizaram análise de conteúdo para compreender como, em 1994, Fernando Henrique Cardoso construiu uma retórica de caminho viável para melhorar políticas já implantadas pelo governo. E como Lula e Brizola utilizaram-se mais de propaganda negativa para atacar Fernando Henrique.

Analisando a eleição para Presidência em 2014, Massuchin et al. (2016) demonstraram que o apelo emocional foi predominante naquele horário eleitoral, aliado ao pragmático. Dessa forma, conteúdos que tentavam prender o eleitor de forma mais emocional foram mesclados com discussão de temas de políticas públicas.

Diante dessa premissa teórica e utilizando a metodologia da Análise de Conteúdo com o modelo adotado pelo grupo de pesquisa em Comunicação Política e Opinião Pública (CPOP) da Universidade Federal do Paraná (UFPR), nosso objetivo neste texto é compreender como os candidatos à Presidência da República em 2018 utilizaram o apelo da retórica.

Tendo em vista que nessa última campanha o tempo de HGPE foi mais curto, pretende-se responder a seguinte questão: menos tempo para as mensagens faz com que os candidatos à Presidência utilizem em seus programas mais o apelo pragmático do que o emocional? Pois se entende que com tempo mais enxuto os indivíduos optem por falas mais programáticas. Os programas foram coletados e classificados segundo livro de códigos pré-estabelecido pelo CPOP.

De acordo com Massuchin et ali (2016), a variável apelo é categórica e serve para identificar a que conteúdo persuasivo o candidato recorre para construir a mensagem. Nesta categoria, os segmentos podem ser classificados a partir de cinco possibilidades: apelo pragmático (quando apresenta uma proposição de política pública); apelo ideológico (quando está baseado em preceitos ou dogmas ideológicos); apelo político (quando o apelo é restrito à defesa de uma posição do partido ou grupo político); apelo emocional (quando a mensagem é desprovida de conteúdo político, pragmático ou ideológico, apelando-se para aspectos simbólicos); e apelo documental/credibilidade da fonte (quando há o predomínio do argumento de autoridade).

Tendo em vista que a campanha eleitoral de 2018 foi composta por 13 candidatos à Presidência, decidiu-se analisar os quatro candidatos mais votados, pois para os objetivos desse texto, aqueles candidatos que obtiveram menos de 3% dos votos não serão relevantes. Portanto, a tabela 1 apresenta o tipo de apelo utilizado pelos seguintes candidatos: Jair Bolsonaro (PSL), Fernando Haddad (PT), Ciro Gomes (PDT) e Geraldo Alckmin (PSDB). Sendo que os dois primeiros candidatos disputaram o segundo turno, tendo conseguido, no primeiro, 46% e 29% dos votos, respectivamente, e o terceiro e quarto candidatos obtiveram 12,4% e 4,76%.

Tabela 1 – Tipo de apelo no HGPE dos principais candidatos a presidente do Brasil no 1º turno de 2018

Fonte: Autoras, a partir do banco HGPE presidencial – 1º turno/2018 (CPOP).