O pesquisador Miguel Quessada investiga os partidos que passaram por um reposicionamento de imagem e nome nos últimos doze anos (2017 a 2025). Entre os achados, um chamou atenção: os partidos que mantinham o trabalhista no nome:  PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), PTdoB (Partido Trabalhista do Brasil), PTN (Partido Trabalhista Nacional) e PTC (Partido Trabalhista Cristão).

Criado em 1945, o PTB original era o braço partidário do projeto de Getúlio Vargas. Sua missão era clara: ser a ponte entre o governo e os sindicatos, servindo de contraponto tanto ao avanço do comunismo (PCB) quanto à oposição liberal (UDN). Era o pilar do “Queremismo” e a casa oficial do trabalhismo varguista (Gomes, 2002).

Com o passar das décadas, o trabalhismo se fragmentou em siglas que buscavam outros caminhos:

  • PTdoB: Surgiu nos anos 80 de uma dissidência do próprio PTB. Ficou conhecido pelo símbolo do coração e por tentar manter viva uma identidade que se descolava da esquerda tradicional.
  • PTN: Também nascido em 1945, o partido funcionava quase como uma “força auxiliar” estratégica. Sua função era organizar massas sindicalizadas, mas com um viés ideológico mais à direita, posicionando-se como uma alternativa conservadora dentro do campo trabalhista.

Ao contrário das siglas que tentavam herdar o nome, outros partidos preferiram apagar o passado para se reinventar. É o caso do PTC. O partido, que nasceu como Partido da Juventude e foi o PRN de Fernando Collor, mudou de nome e de marca justamente para se distanciar de antigas heranças e crises políticas, focando em uma imagem mais moderna e desvinculada das raízes sindicais.

Ao observar os documentos de base desses partidos (estatutos, manifestos e afins), criou-se um livro de código com as pautas defendidas. No caso dessa análise, foi selecionada três variáveis ligadas ao trabalhismo: defesa dos trabalhadores, apoio aos sindicatos e direito à greve. O quadro a seguir mostra como as pautas foram tratadas antes e após o reposicionamento.

 O cenário pré-reposicionamento mostrava agremiações que, embora com intensidades distintas, mantinham o compromisso programático com o mundo do trabalho:

  • PTN: Alinhava-se integralmente às três variáveis analisadas;
  • PTB e PTdoB: Contemplavam ao menos duas das pautas laborais em seus documentos;
  • PTC: Mantinha o trabalhismo apenas na sigla, apresentando um distanciamento prático já naquele período.

Após o reposicionamento, o termo trabalhista sumiu não apenas da nomenclatura, mas da pauta dos partidos. Não é uma mera coincidência, mas uma estratégia de reposicionamento escolhida para distanciar do nome trabalhista. O objetivo central parece ser o distanciamento de qualquer associação simbólica ao Partido dos Trabalhadores (PT), buscando um espaço no espectro político mais à direita ou ao centro-direita., evitando assim, qualquer associação à esquerda. Na época da mudança, tanto o antipetismo como o bolsonarismo estavam em alta.

Essa limpeza programática ganha contornos críticos com as discussões sobre a escala 6×1. Ao abandonarem suas bases trabalhistas históricas, essas legendas deixaram de carregar as bandeiras de proteção ao trabalhador. O reposicionamento, portanto, consolidou uma mudança de identidade que prioriza a conveniência eleitoral em detrimento da representação histórica de classe.