Como uma instituição pública pode falar com os jovens sem deixar de cumprir sua função de informar? Essa é uma das questões levantadas pela pesquisa de Renata Copatti Salvador. O trabalho analisa a atuação do Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) no TikTok e mostra como o órgão incorporou memes, trends e referências da cultura pop – do Big Brother Brasil ao kpop – para disputar a atenção dos usuários. A estratégia aproxima a instituição de públicos mais jovens e rompe com a imagem tradicionalmente formal dos órgãos públicos.
Uma problemática relevante é que essas instituições passam a realizar essas funções em ambientes que possuem suas próprias regras. É nesse ponto que entra o conceito de plataformização. Para Nieborg, Van Dijck e Poell (2020), as plataformas digitais exercem influência crescente sobre práticas sociais e institucionais, levando organizações a adaptar conteúdos, formatos e estratégias às suas lógicas algorítmicas e comerciais. Assim, a instituição pública não escolhe apenas o que dizer, mas também precisa considerar como dizer, em qual formato, com quais referências e de que maneira aumentar as chances de aquele conteúdo circular.
No TikTok do TRE-RJ, essa adaptação aparece de maneira bastante evidente. O perfil analisado possuía 45,9 mil seguidores e mais de 4 milhões de curtidas e utilizava hashtags como #fyp e #foryoupage, além de trends, áudios virais e referências à cultura pop. A própria descrição do perfil “O papo é sério, mas não precisa ser chato ✨” sintetiza a tentativa de conciliar a seriedade da instituição com uma apresentação mais informal e próxima do público da plataforma. Treré (2025), por sua vez, argumenta que a adaptação às ferramentas das redes para conquistar visibilidade pode ser compreendida como uma forma de resistência ao poder algorítmico: as instituições podem utilizar os próprios mecanismos das plataformas para fazer circular conteúdos socialmente relevantes.
Mas há um detalhe importante: ter engajamento não é o mesmo que prestar um serviço público de comunicação. Em uma das publicações analisadas, sobre a necessidade do título de eleitor para realização do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), o conteúdo gerou dúvidas nos comentários, mas muitas delas não receberam resposta oficial. Enquanto isso, os próprios usuários tentavam esclarecer as questões entre si.


Essa discussão recupera uma questão central da própria comunicação pública: o cidadão não deve ser apenas audiência, e sim sujeito do processo comunicacional. Duarte (2007, 2011) e Koçouski (2013) destacam justamente a dimensão do diálogo e da participação necessários para a comunicação estatal. Nas plataformas digitais, isso significa que a responsabilidade da instituição não termina quando o conteúdo consegue chegar ao feed do usuário. Ela continua nos comentários, nas dúvidas, nas respostas e na orientação oferecida a quem procura o órgão.
Nesse contexto, mostra-se a maior tensão identificada pelo estudo. O desafio não está em decidir se órgãos públicos podem ou não usar memes. A questão é o que acontece depois que o meme chama a atenção. A comunicação pública precisa transformar essa atenção em informação confiável, orientação e possibilidade de diálogo. Como aponta a pesquisa, a comunicação não termina quando o vídeo é publicado: ela também envolve acompanhar as dúvidas, corrigir informações e indicar caminhos oficiais para o cidadão.
O caso do TRE-RJ mostra, assim, um dilema cada vez mais presente para instituições públicas nas plataformas digitais: como conquistar visibilidade sem deixar que a lógica da plataforma prejudique a comunicação pública? A necessidade de performar de uma forma jovial e "descolada” na rede chinesa para chamar a atenção dos usuários não pode tomar o lugar da informação de interesse público. Se o meme aproxima, é a informação que efetivamente cumpre a função pública da comunicação.
Referências:
BRANDÃO, E. P. Usos e significados do conceito comunicação pública. In: ENCONTRO DOS NÚCLEOS DE PESQUISA DA INTERCOM, 6., 2006, Brasília. Anais... São Paulo: Intercom, 2006. Disponível em: https://www.portcom.intercom.org.br/pdfs/38942022201012711408495905478367291786.pdf
DUARTE, J. Comunicação pública. In: LOPES, B. (org.). Gestão da comunicação empresarial: teoria e técnica. São Paulo: Mauad, 2007.
DUARTE, J. Sobre a emergência do(s) conceito(s) de comunicação pública. ABCPública, Brasília, DF, 2011.
KOÇOUSKI, M. Comunicação pública: construindo um conceito. In: MATOS, H. (org.). Comunicação pública: interlocuções, interlocutores e perspectivas. São Paulo: ECA-USP, 2013. p. 41-58.
NIEBORG, D.; VAN DIJCK, J.; POELL, T. Plataformização. Tradução de Rafael Grohmann. revista Fronteiras - estudos midiáticos, 22(1), 2020. Disponível em: https://grupos.moodle.ufsc.br/pluginfile.php/2582235/mod_resource/content/1/excelente%20demais%20-%20Plataformização%20(Von%20Dijck).pdf. Acesso em: 14 jun. 2026.
TRERÉ, E. Una cartografía de la política algorítmica: plataformas, protocolos, públicos y poder. In: LÓPEZ GARCÍA, G.; CAMPOS DOMÍNGUEZ, E. (org.). La esfera pública postmediática y sus flujos de comunicación. Madrid: Los Libros de la Catarata, 2025. p. 69-93.
