A pesquisa de Maíra Orso investiga se a posição ocupada pelos atores políticos modifica a maneira como o radicalismo discursivo aparece nas redes sociais digitais. O estudo compara deputados federais e atores não institucionalizados ligados ao campo da direita brasileira para responder a uma questão central: o exercício do mandato modera o discurso ou transforma as formas pelas quais posições radicalizadas são apresentadas ao público? Deputados e ativistas compartilham o mesmo ambiente comunicacional. No X, ambos estão submetidos às lógicas de visibilidade, velocidade e engajamento das plataformas, que podem favorecer mensagens confrontativas, moralizadas e emocionalmente mobilizadoras (Papacharissi, 2015; Van Dijck, Poell e De Waal, 2018). Eles ocupam, entretanto, posições diferentes diante das instituições. Parlamentares atuam sob regras formais, expectativas de decoro, responsabilidades representativas e escrutínio jurídico, eleitoral e midiático. Os atores não institucionalizados não estão sujeitos, durante o período analisado, às mesmas obrigações associadas ao exercício de um mandato. A partir do neoinstitucionalismo sociológico, o argumento central sustenta que as instituições não agem apenas por meio de punições. Elas também estabelecem papéis, normas e expectativas sobre aquilo que é entendido como comportamento apropriado (DiMaggio e Powell, 1983; March e Olsen, 1989). A hipótese não pressupõe, portanto, que parlamentares sejam necessariamente moderados ou deixem de mobilizar repertórios radicalizados. A posição institucional pode modular tanto a frequência dessas manifestações quanto a maneira de formulá-las e legitimá-las. A expectativa é de maior frequência relativa e de formas mais diretas, explícitas, incivis ou moralizantes entre os atores não institucionalizados. Entre os deputados, a hipótese aponta para maior presença relativa de formulações indiretas, eufemizadas ou enquadradas em registros jurídicos e procedimentais. O estudo não considera radical qualquer crítica contundente, tema conservador ou posicionamento ideológico. O radicalismo discursivo é definido como um padrão de comunicação que tensiona princípios da deliberação democrática. A operacionalização organiza o conceito em quatro dimensões: antidemocratismo e deslegitimação institucional; autoritarismo e intolerância; reacionarismo e apelo restaurador; e maniqueísmo e incivilidade discursiva. Elas permitem observar desde a negação da legitimidade de instituições e procedimentos democráticos até a defesa de punições arbitrárias e restrições de direitos, as narrativas de decadência e restauração de uma ordem passada e a construção moralmente absoluta de inimigos por meio de insultos, ridicularização ou expressões desumanizantes. O corpus foi construído com publicações realizadas no X entre 1º de janeiro de 2023 e 30 de junho de 2025. O período de trinta meses inclui os ataques de 8 de janeiro, o início da 57ª Legislatura e diferentes controvérsias políticas e institucionais. O grupo institucional reúne 95 deputados federais selecionados a partir de critérios de trajetória política e tempo efetivo de exercício do mandato. O grupo não institucional é formado por 50 perfis, entre influenciadores, comunicadores, lideranças religiosas, ativistas individuais, movimentos, organizações, mídias hiperpartidárias e páginas coletivas. A construção dos grupos constitui uma escolha central da pesquisa. A seleção não foi realizada com base na presença prévia de palavras consideradas radicais nas publicações. A vinculação ao campo investigado foi estabelecida por informações biográficas, organizacionais e documentais externas ao conteúdo analisado. Para os deputados, também foi exigido um período mínimo de exercício parlamentar; para os atores não institucionalizados, a amostragem foi intencional e orientada pela relevância e pela diversidade dos perfis. Como não existe uma relação oficial de ativistas equivalente à lista de integrantes da Câmara dos Deputados, esse segundo grupo não pretende representar estatisticamente toda a direita presente no X. Seu objetivo é reunir casos comparáveis que atuam fora de mandatos e instituições eletivas. Também não foram aplicados filtros de palavras-chave, temas ou presença presumida de radicalismo na formação do banco. Esse procedimento preserva publicações radicalizadas e não radicalizadas no mesmo universo empírico e fornece um denominador comum para o cálculo posterior das frequências. Após a organização e a verificação dos registros, chegou-se à seguinte composição: Um primeiro resultado descritivo da construção do corpus é que os atores não institucionalizados correspondem a 34,5% dos perfis selecionados, mas concentram 39,3% das publicações válidas. No material recuperado, isso representa uma média de 186,9 publicações por perfil não institucionalizado, diante de 152,2 entre os deputados. Essa diferença não constitui evidência de maior radicalismo, pois ainda não se refere ao conteúdo das mensagens. Ela demonstra, contudo, porque a comparação não pode se apoiar somente nos totais brutos de publicações, ou seja, grupos e atores com volumes distintos precisam ser comparados por frequências relativas. O segundo resultado desta etapa é a elaboração de um livro de códigos que transforma a discussão teórica em critérios observáveis e replicáveis. Cada uma das quatro dimensões começa com uma variável que registra presença ou ausência. Quando uma dimensão aparece, categorias adicionais identificam sua forma de manifestação, o objeto questionado e o alvo atingido. Uma publicação é classificada como radicalizada quando apresenta pelo menos uma das quatro dimensões, que podem ocorrer isoladamente ou em conjunto. A frequência corresponde à proporção de publicações radicalizadas em relação ao total válido de cada ator, enquanto a forma é observada pelas categorias específicas, pelos alvos e pelas combinações mobilizadas. O instrumento também registra o tema das mensagens, as modalidades de publicação e os recursos empregados para apresentar o conteúdo ou mobilizar o público, como humor, ironia, memes, mimetização da estética jornalística e chamadas explícitas para curtir, comentar, compartilhar ou participar de ações. Esses elementos ajudam a contextualizar a circulação do discurso, mas não são considerados radicalismo quando aparecem sozinhos. Da mesma maneira, a ocorrência simultânea de várias dimensões indica a amplitude do repertório mobilizado, e não uma escala automática de intensidade. Essas decisões delimitam o fenômeno e reduzem o risco de classificar como radical uma publicação apenas por seu tema, por seu tom crítico ou pela posição ideológica de quem a produziu. O corpus consolidado e o livro de códigos constituem, assim, resultados metodológicos que tornam possível comparar atores submetidos a diferentes condições de institucionalização. A etapa seguinte consiste no teste de confiabilidade entre codificadores e na aplicação do instrumento. A partir daí, será possível verificar se o mandato se associa à redução do radicalismo discursivo, à transformação de suas formas de expressão ou … Read More “Entre o mandato e o ativismo: configurações do radicalismo discursivo no campo da extrema-direita no Brasil” »
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