Eleições

Pastores na urna: como se distribuíram os prefeituráveis na eleição de 2020

Mais de 12 mil candidatos apresentaram uma posição religiosa no nome de urna durante as eleições municipais deste ano

Marcela Barba Santos

O Brasil, ainda um país majoritariamente católico, presencia a ascensão dos evangélicos, sobretudo a ala neopentecostal, frente à política nacional desde a sua última redemocratização, em 1988 (SILVA, 2017, p. 238). Desde então, há uma cada vez mais expressiva presença evangélica no cenário político brasileiro, a exemplo da crescente Frente Parlamentar Evangélica do Congresso Nacional. 

No que tange aos partidos desses políticos, cabe ressaltar que eles se distribuem em diferentes legendas, com o auxílio do sistema eleitoral nacional (RODRIGUES-SILVEIRA; CERVI, 2019). Assim como podem ser encontrados em partidos de diferentes espectros ideológicos, associam-se também às legendas que se aproximam de suas identificações religiosas, como o Partido Republicano Brasileiro (PRB) e  Partido Social Cristão (PSC), controlados pela Igreja Universal do Reino de Deus e Assembleia de Deus (CARVALHO JUNIOR; ORO, 2018).  

Além da evidente presença na Câmara dos Deputados, com a já citada Bancada Evangélica, o núcleo protestante também se sobressai nas eleições municipais. Os pleitos de 2012, 2016 e 2020 revelaram que, entre os candidatos que optaram por incluir em seu nome de urna termos que distinguem seus cargos religiosos, a presença de pastores foi massiva (ver Tabela 1). Aqui são incluídos candidatos a prefeito, vice-prefeito e vereador.

Tabela 1 - Candidatos religiosos nas eleições municipais brasileiras de 2020

Fonte: elaboração própria a partir de dados do TSE (2020).

Ao focarmos nas eleições para prefeito, atentamo-nos aos números de padres e pastores (ver Tabela 2). Verificamos que a diferença entre eles não é tão expressiva quanto nas que incluem os vereadores. Todavia, enquanto o número de padres apresenta queda, o de pastores segue aumentando.

Tabela 2 - Candidatos religiosos a prefeito em 2020

Fonte: elaboração própria a partir de dados do TSE (2020).

Considerando a ascensão e relevância evangélica no cenário político nacional das últimas décadas, propomo-nos aqui a observar como os candidatos a prefeito, cujo nome de urna inclui o termo pastor ou pastora, se distribuem entre os estados brasileiros e os partidos políticos durante a eleição de 2020. Abaixo, observamos que os 61 candidatos que manifestam o termo religioso em seu nome de urna se distribuem em 21 estados (ver Tabela 3). Ainda que o Pará ostente o maior número de pastores prefeituráveis, valor que vai de encontro ao fato da região norte concentrar a maior porcentagem de evangélicos no país (CARVALHO JUNIOR; ORO, 2018), nota-se que há uma pulverização desse perfil de candidato em todas as regiões brasileiras. 

Tabela 3 - Candidatos pastores distribuídos por estados

Fonte: elaboração própria a partir de dados do TSE (2020).

Essa dispersão dos candidatos religiosos, além de se apresentar geograficamente, também é percebida no que tange às legendas escolhidas (ver Quadro 1) [1]. Embora o Brasil não tenha um partido integralmente religioso, assinala-se que há os identificados como confessionais de direita. Eles “baseiam a sua ideologia ou programa explicitamente em concepções religiosas e/ou estão ligados a igrejas e a movimentos com forte apelo conservador” (CODATO; BERLATTO; BOLOGNESI, 2018, p. 879). Seguindo a classificação que Coppedge propôs para os sistemas de partidos latino-americanos, Codato, Berlatto e Bolognesi (2018) incluem os partidos PEN, PHS, PR, PRB, PSC e PSDC nessa categoria político religiosa. Logo, poderíamos esperar uma concentração de candidatos com denominação religiosa nesses partidos políticos. Entretanto, observa-se ampla distribuição. Esses prefeituráveis se associam às legendas confessionais, assim como aos partidos personalistas e seculares de direita, incluindo alguns de centro e centro-esquerda.

Quadro 1 - Partidos políticos classificados a partir das categorias de Coppedge, atualizada por Codato, Berlatto e Bolognesi (2018)

Fonte: elaboração própria a partir de dados do TSE (2020) e de Codato, Berlatto e Bolognesi (2018).

Os dados expostos acima reiteram a descentralização partidária dos religiosos na política nacional (RODRIGUES-SILVEIRA; CERVI, 2019). São candidatos que se apresentam em legendas confessionais e seculares. Essa capilaridade, encontrada também nos estados, indica como esse perfil de candidato religioso tem espaço para ascender em diferentes meios, sejam eles ideológicos ou geográficos.


[1] Essa classificação não inclui os partidos Rede e PMB, cada partido contou com um candidato. Essas legendas, relativamente novas, não estão na categorização de Codato, Berlatto e Bolognesi (2018).


Referências

CARVALHO JUNIOR, E. T. DE; ORO, A. P. Eleições municipais 2016: religião e política nas capitais brasileiras. Debates do NER, v. 2, n. 32, p. 15–68, 2018. 

CODATO, A.; BERLATTO, F.; BOLOGNESI, B. Tipologia dos políticos de direita no Brasil: uma classificação empírica. Análise Social, v. LIII, n. 229, p. 870–897, 2018. 

COPPEDGE, M. A classification of Latin American political parties. Helen Kellogg Institute for International Studies, v. 244, 1997. 

RODRIGUES-SILVEIRA, R.; CERVI, E. U. Evangélicos e voto legislativo: Diversidade confessional e voto em deputados da bancada evangélica no Brasil. Latin American Research Review, v. 54, n. 3, p. 560–573, 2019. 

SILVA, L. G. T. DA. Religião e política no Brasil. Latinoamérica. Revista de Estudios Latinoamericanos, n. 64, 2017.