Por: Maíra Orso

A consolidação do uso de plataformas digitais de informação gerou a configuração de um sistema de mídia híbrido, onde velhas e novas mídias disputam e negociam espaço (CHADWICK, 2017; LOTAN et al, 2011). Por sistemas híbridos compreende-se os sistemas de mídia que estão ligados aos sistemas políticos nos quais operam e envolvem não apenas os veículos jornalísticos, mas também sindicatos, ativistas, grupos de interesse, elite política, dentre outros (HALLIN, 2016).

Alguns pesquisadores têm demonstrado que esse novo ambiente de troca de informações sem mediação pode fomentar implicações democráticas através da desordem informacional, fake news e discursos populistas que direcionam ataques às instituições políticas, jornalísticas e a todo estabilishment. Bennett e Livingston (2018) ainda discutem que os fluxos de comunicação nesses ambientes formam novas dinâmicas de consumo produção e distribuição de conteúdos, contribuindo no desenvolvimento de alguns fenômenos sociais, como a multiplicação de páginas de grupos extremistas de direita – que estão fora da esfera institucional –, e que são denominados como nativos digitais. 

Como esses grupos são plurais, não é possível definir uma identidade única, pois são integrados por anticomunistas, nostálgicos da ditadura militar, fundamentalistas religiosos, liberais econômicos extremistas, entre outros (MIGUEL, 2018). Diante disso, a análise metodológica se concentrou na comparação de três páginas que representam o modus operandi da extrema-direita online (@BrazilFight; @verdeeamarela38 e @DireitaBrasil) para compreender convergências e divergências dentre suas estratégias de ativismo noTwitter.

Os dados apresentados são descritivos e compreendem uma coleta de tweets do mês de junho de 2022. Foram categorizados um total de 342 tweets, sendo 194 da @verdeeamarela38; 24 da @DireitaBrasil e 124 da @BrazilFight, que foram codificados através de um Livro de Código elaborado para a pesquisa, recortando-se aqui, dados relativos às variáveis de ataques institucionais, ataques ideológicos, ataques midiáticos e formato do discurso.

TABELA 1 – CLASSIFICAÇÃO QUANTO AOS ATAQUES INSTITUCIONAIS (JUNHO/22)

 BrazilFightDireitaBrasilverdeeamarela38Total
Ataques InstN%N%N%  
Ausência10887%2292%15278%28282%
aos deputados 0% 0%32%31%
aos senadores54% 0%21%72%
ao congresso/senado 0% 0%21%21%
ao STF76%14%84%165%
aos juízes do STF/TSE43%14%2513%309%
às prefeituras 0% 0%11%10%
aos partidos 0% 0%11%10%
Total Geral124100%24100%194100%342100%

Fonte: autora (2022)

A literatura identifica que as instituições são alvos frequentes da direita digital (AMARAL, 2020; CASTELLI, 2018; OLIVEIRA et al, 2021; SOLANO, 2018; LÖWY, 2015), e que o STF é um dos principais objetos de ataque, conforme identificam Massuchin et al (2021). O resultado da amostra de um mês analisada vai ao encontro com o que dizem os autores, pois, quando há ataques institucionais – um montante de 18% de todos tweets analisados – a soma de ataques aponta em primeiro lugar os juízes do Supremo Tribunal Federal (STF) ou juízes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e em segundo lugar para o STF como instituição. Os ataques às demais instituições vistas na tabela acima ocorrem, porém em porcentagem menor. Mas vale mencionar que aparecem poucos ataques no período em relação ao total de conteúdos das páginas. 

Quando olhamos para o aspecto ideológico mais criticado pelas páginas (ver tabela 2) , as três obtêm um comportamento muito semelhante quanto aos ataques à variável PT/Lula, que soma um total de 69% do total de 98 ataques categorizados do total de conteúdo analisado, sendo em disparada o alvo mais atacado, característica específica da direita no cenário brasileiro. Na distribuição das contas, quando há menção a variável ataque ideológico, a @DireitaBrasil ataca apenas o PT/Lula (3 vezes), seguido pela @BrazilFight que dos seus ataques direciona 67% para este alvo, assim como mais 70% na @verdeeamarela38. 

TABELA 2 – ASPECTOS IDEOLÓGICOS MAIS CRITICADOS/ATACADOS (JUNHO/22)

 BrazilFightDireitaBrasilverdeeamarela38Total
Ataques ideológicosN%N%N%N%
Esquerda1333%00%1527%2829%
China00%00%12%11%
PT/Lula2667%3100%3970%6869%
Outros partidos00%00%12%11%
Total Geral39100%3100%56100%98100%

Fonte: autora (2022)

A tabela 3, ademais, também é importante para compreender como o ativismo de direita se comporta de forma convergente ou divergente entre si no que tange às instituições jornalísticas. Na soma total, em primeiro lugar elenca-se os ataques à imprensa em geral (46,34%), seguido de ataques a Globo (26,83%); ataques aos jornalistas (9,76%) e a Folha de S. Paulo (9,76%) empatados e a outro meio de comunicação não elencado nas variáveis (7,32%). Há uma semelhança entre as três páginas, que atacam em primeiro lugar a imprensa em geral, sendo a primeira categoria atacada pela @BrazilFight (50%), pela @DireitaBrasil (37%), e também pela @verdeeamarela38 (44,44%). 

TABELA 3 – DISTRIBUIÇÃO DOS TIPOS DE CRÍTICAS/ATAQUES ÀS INSTITUIÇÕES MIDIÁTICAS

 BrazilFightDireitaBrasilverdeeamarela38Total
Rótulos de LinhaN%N%N%N%
Globo937,50%112,50%111,11%1126,83%
Folha de S. Paulo14,17% 0,00%333,33%49,76%
Imprensa em geral1250,00%337,50%444,44%1946,34%
Jornalistas28,33%225,00% 0,00%49,76%
Outros 0,00%225,00%111,11%37,32%
Total Geral24100%8100%9100%41100%

Fonte: autora (2022)

Como o objetivo desta pesquisa também é estudar as características relativas ao formato utilizado pelos perfis para compartilhar conteúdos, a tabela 4 mostra o uso do modelo jornalístico, da ironia ou humor e do teor radical, todos trazidos pela literatura e transformados em variáveis binárias e de coocorrência(EDDINGTON, 2018; MASSUCHIN et al2021; EKMAN, 2014; REIS et al, 2020; PENTEADO, LERNER, 2018; CHAGAS, 2021). Esta apropriação aparece com maior destaque para o formato jornalístico (87%), seguido do uso do humor (84%) e do teor radical (18%). Há uma diferença significativa no modo como cada uma das páginas utiliza esses formatos, o que diferencia e mostra mais uma vez o caráter plural do comportamento da direita no ambiente digital. Enquanto a @BrazilFight tem como principal formato o teor jornalístico (40,3%), seguido de humor (18%), a estratégia da @verdeamarela38 é inversa, utilizando o humor como teor principal (30,4%) e o teor jornalístico em segundo plano (15,5%). Enquanto isso, a @DireitaBrasil possui um formato distribuído entre 29,2% para teor jornalístico e 29,2% para humor. 

O teor radical e os discursos de ódio foram encontrados nas três páginas, no entanto, não foi preponderante, somando 3,2% para @BrazilFight, 6,2% para a @verdeeamarela e de forma mais acentuada 8,3% para a @DireitaBrasil. É interessante notar que esta última, ao mesmo tempo em que se autodeclara conservadora, faz mais críticas às minorias e maior uso do teor radical, sugerindo uma correlação entre os aspectos. Os demais conteúdos não se assemelhavam com nenhum dos três códigos propostos, em boa medida porque eram apenas compartilhamentos sem qualquer manifestação dos perfis.

TABELA 4 – DADOS SOBRE O TEOR DOS CONTEÚDOS (JUNHO/22)

FormatosBrazilFightDireitaBrasilverdeeamarela38
N%N%N%
Jornalístico5040,3729,23015,5
Radical43,228,3126,2
Ironia/Humor1814,5729,25930,4

Fonte: autora (2022)

De maneira geral, as páginas criam determinados alvos e faces da democracia a serem atacados. Por vezes o teor radical se materializa em formado de discursos de ódio contra grupos minoritários (RODRIGUES, BONONE, MIELLI, 2020), em outros casos, aparece em formato de xingamento para atacar o “inimigo” do momento (DAVID, FERNANDEZ, 2016). Os comportamentos agressivos da direita é uma marca de destaque na literatura sobre esses grupos, no entanto, neste período analisado de um mês, aparece apenas pontualmente. 

Ao fazer uma leitura comparativa entre as quatro tabelas, portanto, percebe-se alguns aspectos importantes quanto ao objetivo desta pesquisa. As páginas se aproximam quando debatem a política institucional, lançam ataques ao STF e aos juízes; criticam o PT e o Lula, atacam a imprensa e os jornalistas e quando emitem apoio ao presidente Bolsonaro. Em contrapartida, a @verdeeamarela38 se distancia na utilização do formato – que predomina o humor e a ironia –, na distribuição de ataques gerais, institucionais, a valores e nos tipos de discursos presentes, sendo a página que mais fragmenta seus conteúdos. A @DireitaBrasil se distancia das demais por adotar uma postura mais conservadora, comentar mais sobre minorias e utilizar o teor agressivo de forma mais frequente.  A @BrazilFight se difere por ser a página com mais conteúdo e que a que mais utiliza o formato jornalístico em sua comunicação.

AUTORIA

Maíra Orso é mestranda em Comunicação Social pela linha Comunicação e Política da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Jornalista pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG).

REFERÊNCIAS

AMARAL, André Coelhoso dos Santos. A influência das redes sociais na comunicação política dos partidos de direita radical: o caso do Chega. Tese de Doutorado, 2020.

BENNETT, W. L.; LIVINGSTON, S. The disinformation order: Disruptive communication and the decline of democratic institutions. European Journal of Communication, v. 33(2), p. 122–139, 2018.

CHADWICK, Andrew. The hybrid media system: Politics and power. Oxford University Press, 2017.

CASTELLI, P. G.; PIRRO, A.L.P. The far right as a social movement. European Societies, v. 21, n. 4, p. 447-462, 2019.

CHAGAS, V. Meu malvado favorito: os memes bolsonaristas de WhatsApp e os acontecimentos políticos no Brasil. Revista Estudos Históricos, v. 34, n.72, p.169-196, 2021.

BEN-DAVID, A.; MATAMOROS-FERNÁNDEZ, A. Hate Speech and Covert Discrimination on Social Media: Monitoring the Facebook Pages of Extreme-Right Political Parties in Spain. International Journal of Communication 10/1167–1193, 2016.

EDDINGTON, S. M. The Communicative Constitution of Hate Organizations Online: A Semantic Network Analysis of “Make America Great Again”. Social Media + Society, July-September, 2018.

EKMAN, M. The dark side of online activism: Swedish right-wing extremist video activism on YouTube. MedieKultur: Journal of media and communication research, v. 30, n. 56, p. 21 p.-21, 2014. 

HALLIN, Daniel C. Typology of media systems. In: Oxford Research Encyclopedia of Politics. 2016.

LOTAN, G., Graeff, E., Ananny, M., Gaffney, D., & Pearce, I.. The Arab Spring| the revolutions were tweeted: Information flows during the 2011. Tunisian and Egyptian

revolutions. International journal of communication, 5, 31, 2011.

LÖWY, Michael. Conservadorismo e extrema-direita na Europa e no Brasil. Serviço Social & Sociedade, p. 652-664, 2015.

MASSUCHIN, M.; TAVARES, C.; MITOZO, I.; CHAGAS, V. A estrutura argumentativa do descrédito na ciência: uma análise de mensagens de grupos bolsonaristas de Whats’App na pandemia da COVID-19. Revista Fronteiras – estudos midiáticos, 23(2):160-174 mai/ago de 2021.

MIGUEL, L. F. A reemergência da direita brasileira. SOLANO, Esther et al. (org.). In: O ódio como política: a reinvenção das direitas no Brasil. Boitempo Editorial, 2018.

OLIVEIRA, A. S.; LEITE, B. R. de Messias; MARQUES, R. S. As novas direitas no Brasil e as estratégias de comunicação política nas mídias sociais. Em Tese, Florianópolis, v. 18, n. 2, p. 245­269, set./dez., 2021.

PENTEADO, C. L. de Camargo; LERNER, C. A Direita Na Rede: Mobilização online no impeachment de Dilma Rousseff. Em Debate, Belo Horizonte, v.10, n.1, p.12-24, abril de 2018.

REIS, R.; ZANETTI, D.; FRIZZERA, L. A conveniência dos algoritmos: o papel do YouTube nas eleições brasileiras de 2018. Revista Compolítica, v. 10, n. 1, 2020.

RODRIGUES, Theófilo Machado; BONONE, Luana; MIELLI, Renata. DESINFORMAÇÃO E CRISE DA DEMOCRACIA NO BRASIL: é possível regular fake news?. Confluências| Revista Interdisciplinar de Sociologia e Direito, v. 22, n. 3, p. 30-52, 2020.SOLANO, E. Crise da Democracia e Extremismos de Direita. São Paulo: Fundação Friedrich Ebert,2018.