Uma análise das falas dos candidatos a respeito das reformas da previdência, política e tributária

Fernanda Cavassana

Em períodos de crises política e econômica, muitos passam a defender a necessidade de realizar reformas conjunturais na legislação – no que diz respeito, por exemplo, às regras fiscais e eleitorais – como solução para os problemas enfrentados para gerir o país. Por isso, as reformas aparecem como tema saliente nas agendas pública e política, especialmente nos últimos anos com o avanço da discussão e aprovação de algumas propostas. No que diz respeito às campanhas, as últimas disputas já sofreram mudanças seguindo as Minirreformas Eleitorais de 2015 e de 2017. No Governo Temer, a Reforma Trabalhista foi aprovada em 2017 e a da Previdência apresentada em 2016, porém o trâmite da proposta foi suspenso na Câmara dos Deputados. Agora, é o projeto de Bolsonaro que avança no Congresso.

Considerando tal conjuntura e o último período eleitoral, ressalta-se a importância de se conhecer, na campanha, o que os candidatos à Presidência defendem sobre esses assuntos. Pertinente a isso, a realização de debates televisivos se constitui uma oportunidade relevante para o eleitor avaliar a performance dos elegíveis, especialmente por serem âmbito do confronto das visões e posicionamentos dos candidatos sob a mediação jornalística, e consolidar sua decisão de voto (Lourenço, 2010; Vasconcellos, 2014).

Neste post, discutiremos como a temática reformas – previdência, política e tributária – apareceu nos debates na TV nas eleições presidenciais de 2018, a partir dos dados coletados e categorizados pelo CPOP. A unidade de análise aqui é o segmento de fala no debate, que pode representar diferentes tipos de participação, como uma pergunta, resposta, réplica, tréplica ou até mesmo as considerações iniciais ou finais dos candidatos. Além disso, o locutor da fala pode ser um jornalista convidado, o apresentador/mediador do debate ou um eleitor convidado a participar.

Tabela 1 – Temas das falas dos candidatos nos debates

Fonte: CPOP (2018)

A primeira tabela (acima) expõe os temas das falas, dentro de um livro de códigos previamente elaborado pelo grupo. Nela, observa-se que em 38 das participações (4,8% do total), abordou-se especificamente as propostas sobre reformas. A temática aparece no segundo tercil das categorias, com uma frequência um pouco menor que a média simples dos temas (49,7). Verifica-se ainda que ganharam destaques as falas voltadas para tratar elementos da disputa (metacampanha), como construção da imagem do candidato (16,4%), e que mesclam diferentes temas de políticas públicas (cardápio – 13,2%).


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Outro dado verificado é temporal, observando como essas 38 participações sobre as reformas apareceram ao longo do primeiro turno da campanha (considerando que no segundo não houve debates). De acordo com o gráfico abaixo, a temática apareceu principalmente no último debate, promovido pela TV Globo na véspera do pleito. Nele, 14 falas foram especificamente sobre as reformas. Verifica-se também que o tema não foi pauta específica de fala no debate de 9 de setembro de 2018 (TV Gazeta) e apareceu de forma mínima nas demais datas, com exceção do primeiro (6) e do quarto (7) debate na TV.

Gráfico 1 – Falas sobre reforma por debate na TV (N)

Fonte: CPOP (2018)

Outra informação a se destacar diz respeito à comparação do modo como tema apareceu entre os candidatos. Para observar isso, a tabela a seguir cruza a valência do tema nas falas dos participantes. São expostos os resíduos padronizados, permitindo comparar o tratamento do tema por locutor, sem desconsiderar as diferenças na quantidade de participação que cada um teve em todos os debates televisivos.  Portanto, pode-se afirmar que o assunto foi pautado principalmente de modo neutro por jornalistas nas perguntas (4,78). Destaca-se ainda que, significativamente, as reformas foram mais criticadas por Ciro Gomes (2,36) e mais defendidas por Geraldo Alckmin (2,79).

Tabela 2 – Valência do tema reformas por participante (RP)

Fonte: CPOP (2018)

Cabe lembrar que o partido de Alckmin (PSDB) foi importante aliado das reformas apresentadas por Temer no Congresso e que o candidato a defendeu em campanha, ressaltando ainda a necessidade de realizar uma reforma na Previdência Social. Já a campanha de Ciro (PDT) defendeu a necessidade de reformas políticas no país, mas sempre se colocou crítica às propostas do Governo Temer (PDT, 2018).

Outra informação relevante a partir da tabela 2 é que o presidente eleito, Jair Bolsonaro, nas poucas participações que teve, não chegou a tratar especificamente dos temas em suas falas. Durante as eleições de 2018, ele só foi no primeiro (Band) e no segundo (RedeTV) debates. Destaca-se ainda que a categoria “indefinida” foi considerada para falas em que são abordados aspectos positivos e negativos do tema, não sendo possível definir uma valoração do tema pelo locutor naquela participação. Neste caso, Haddad foi o candidato que mais apresentou um posicionamento indefinido sobre o tema.

Como observação final, cabe destacar que esses dados são sumários sobre o tema. Outras análises podem explorar a postura e as estratégias dos participantes ao abordarem o tema. Além da possibilidade de análises mais qualitativas que, considerando textualmente a fala dos candidatos, podem apontar mais detalhes sobre a abordagem das reformas nos confrontos dos presidenciáveis e merecem ser desenvolvidas, assim como a análise do tema em outras peças da comunicação eleitoral, como o HGPE e as propostas de governo dos candidatos.

Referências

Lourenço, L. C. Los debates presidenciales en 1989: el peso de la campaña para decidir el voto presidencial. Actas del V Congreso Latinoamericano de Ciencia Política. Buenos Aires: ALACIP, 2010.

PDT. “Ciro Gomes volta a criticar a Reforma Trabalhista”. Notícia. 30 de maio de 2018. Disponível em: https://www.pdt.org.br/index.php/ciro-gomes-volta-a-criticar-a-reforma-trabalhista/ Acesso em 07/08/2019.

Vasconcellos, F. Debates presidenciais na TV como dispositivos complementares de informação política no Brasil: características e estratégias. Em: Anais do IX Encontro da Associação Brasileira de Ciência Política. Brasília: ABCP, 2014.