A pesquisa de Rafael Linhares traz reflexões sobre o uso político das redes sociais digitais.

Além das redes sociais online funcionarem como ferramentas de customização e individualização da atividade política, elas propiciam um campo amplo de estratégias de conexão das elites parlamentares com suas bases sociais, indo além da disseminação de desinformação e discursos de ódio. Nesse sentido, as plataformas digitais provocam metamorfoses nas relações de representação, aproximando representantes e representados em uma dinâmica de “campanha permanente” (Massuchin; Silva, 2019).  

Um dos argumentos centrais é que o uso das mídias digitais pelas elites políticas é profundamente influenciado pela ideologia partidária, que molda tanto a forma quanto o conteúdo das postagens. Enquanto a literatura frequentemente aponta para um padrão puramente personalista e focado na vida privada (privatização) , este estudo argumenta que o debate sobre temas de políticas públicas substantivas também se configura como uma dimensão essencial e expressiva das estratégias de comunicação política na esfera pública digital (Braga; Ramos; Padilha, 2024). 

 No exercício empírico, foi realizado um estudo-piloto com cerca de 2.600 postagens do Instagram , extraídas de um universo de 40 deputados federais com maior engajamento  na Argentina, do Brasil e de Portugal no primeiro semestre de 2024. A metodologia aplicou a análise de conteúdo a partir de um livro de código específico, mapeando os formatos (vídeos, fotos, banners, memes) e as agendas temáticas dominantes nas publicações.  Tanto a categorização das publicações quanto o livro de códigos foi desenvolvido pelos pesquisadores do Grupo de Pesquisa Atores, Instituições, Comp. e Tecnologias Digitais (GEIST-UFPR).

Os resultados agregados mostram um predomínio de vídeos próprios (34,5%) e conteúdos de terceiros (30,8%) no quesito forma , indicando uma busca por comunicação ágil e direta em detrimento de recursos satíricos como memes, que foram residuais (0,8%). Quanto ao conteúdo, o posicionamento ideológico sobre temas do momento liderou a atenção (34%), seguido por eventos (19%) e o debate de políticas públicas (policies), que alcançou significativos 16,1% do corpus analisado.  Como mostramos no gráfico abaixo: 

Gráfico 1 – Forma das portagens agregado (n =2606)

Fonte: GEIST-UFPR

Quanto ao conteúdo das publicações, os resultados agregados revelam que o debate político na esfera digital é amplamente dominado por tomadas de posição. O posicionamento ideológico sobre temas do momento liderou a atenção dos parlamentares, representando cerca de 34% do corpus analisado. Em seguida, aparecem as postagens voltadas para eventos e agendamentos, com 19%, e o debate focado em políticas públicas (policies), que alcançou significativos 16,1% das publicações. Na metade inferior da distribuição, encontram-se os conteúdos de cunho personalista, divididos entre o gerenciamento de imagem pessoal (cerca de 14%) e a associação com líderes ou personalidades públicas (cerca de 12%). Por fim, a difusão de desinformação e discursos de ódio configurou-se como o fenômeno menos frequente e mais residual entre as categorias mapeadas, registrando apenas 5% do total de posts. Como mostramos no gráfico abaixo:

Gráfico 2 – Conteúdo das portagens agregado (n =2606)

Fonte: GEIST-UFPR

O trabalho ressalta que o gerenciamento da imagem pública digital se tornou o fulcro da prática política contemporânea. Longe de ser um ambiente exclusivo para a erosão democrática, o Instagram atua como um espaço ampliado onde a disputa ideológica e o debate de políticas públicas reais coexistem de maneira complexa e fragmentada entre os diferentes atores políticos do Sul Global no período analisado.

REFERÊNCIAS

BRAGA, Sérgio Soares; RAMOS, Rangel Ramiro; PADILHA, Rafael Linhares. Muito além das “fake news”; estratégias discursivas e defesa de políticas públicas de parlamentares da Argentina, Brasil e Portugal em ambientes digitais polarizados. Universidade Federal da Bahia, 14º Encontro da ABCP, 2024.

MASSUCHIN, Michele Goulart; SILVA, Luana Fonseca. Campanha permanente nas redes sociais digitais: um estudo de caso da análise da fanpage do governador Flávio Dino no Brasil. Revista Internacional de Relaciones Públicas, 2019, 9.17: 229-248.