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Conversações políticas online: que os brasileiros falam sobre a ditadura?

Posted on 20 de março de 202031 de julho de 2020 By cpop
Comunicação Política

Uma breve análise de comentários feitos em páginas de Facebook de portais de notícias brasileiros durante a eleição presidencial de 2018

Rafaela Mazurechen Sinderski, Rangel Ramos e Michele Goulart Massuchin

Em 2020, a recente democracia brasileira completa 35 anos. Desde o fim do regime militar, em vigor entre 1964 e 1985, cinco presidentes da República foram eleitos diretamente, dois deles sofreram impeachment – Fernando Collor de Mello (PRN), em 1992, e Dilma Rousseff (PT), em 2016, ambos substituídos por seus vice-presidentes – e o país vive, atualmente, o mandato de seu 38º representante: Jair Bolsonaro (sem partido), ex-deputado federal, militar reformado e figura de destaque da extrema direita.

Marcado por conflitos e polarizações, o pleito que deu a vitória a Bolsonaro em 2018 inflamou debates sobre valores democráticos. Ainda que Reis (2014) tenha afirmado que, desde o processo de redemocratização, não tem sido tão simples encontrar forças políticas em evidência que encaram o período ditatorial de forma positiva, a trajetória política do ex-parlamentar contém episódios de nostalgia e exaltação pública do regime militar.

Em julho de 2016, por exemplo, Bolsonaro afirmou, durante entrevista à rádio Jovem Pan, que o principal erro da ditadura teria sido torturar e não matar suas vítimas. Meses depois, durante a votação do impeachment de Rousseff na Câmara dos Deputados, dedicou seu voto pela destituição da ex-presidente ao coronel Carlos Aberto Brilhante Ustra, torturador e chefe do DOI-Codi em São Paulo entre 1970 e 1974[1]. Seus discursos ressoaram entre uma parcela da população que já vinha demonstrando pouca confiança nas instituições políticas – aproximadamente sete em cada dez brasileiros declararam, em 2018, não confiar nos partidos ou no Congresso Nacional (DATAFOLHA, 2018a) e 32% acreditavam que o governo militar levou a mais conquistas do que perdas para o país (DATAFOLHA, 2018b).

Nesse contexto, plataformas como o Facebook, com espaço para comentários, permitem o aparecimento de conversações sobre temas políticos, mostrando opiniões e pontos de vista dos cidadãos e servindo, de certa forma, como um termômetro para medir interesses e desinteresses. Assim, os comentários são vistos como espaço para que discursos sobre a ditadura militar brasileira apareçam e se dissipem.

Este texto, com base no contexto apresentado acima, apresenta uma análise introdutória de comentários de Facebook feitos nas páginas de sete portais de notícias do Brasil e que podem demonstrar como o tema perpassa as conversações digitais. São três veículos nacionais – G1, O Globo e Estadão – e quatro paranaenses – Bem Paraná, Gazeta do Povo, Massa News e Paraná Portal. Foram selecionados 7.562 comentários que continham a palavra-chave “ditadura”, encontrados em 1.152 posts publicados nas fanpages supracitadas entre julho e outubro de 2018. A coleta foi realizada pelo grupo de pesquisa em Comunicação Política e Opinião Pública (CPOP) da UFPR, com o uso da ferramenta Netvizz.

Os comentários foram submetidos a uma análise de conteúdo automatizada (CERVI, 2019), auxiliada pelo Iramuteq, uma interface de código aberto para o pacote estatístico “R”. Os resultados apontam para a formação de três grupos temáticos, encontrados a partir de uma Classificação Hierárquica Descendente (REINERT, 1990), revelando o teor das conversações sobre ditadura nas páginas selecionadas, dentro do recorte temporal estudado.

Figura 1 – Dendrograma com Classificação Hierárquica Descendente para os comentários sobre ditadura

Fonte: Autores (2020).

Como mostra o dendrograma acima, o maior grupo encontrado, presente em 81,5% dos comentários, menciona a situação política venezuelana, usando termos como “Venezuela”, “ditadura”, “governo” e “apoio”. Esses cenários são encontrados nos seguintes exemplos: “Queremos fechamento das torneiras que financiaram essa ditadura socialista”, publicado na fanpage do G1 em 29 de outubro; e “Esperando o manifesto da ditadura da Venezuela e de Cuba”, comentado em postagem do Estadão, no dia 5 de outubro.

Nessa classe, predominam, portanto, as discussões sobre regimes que não são, necessariamente, o militar brasileiro. Já ao falar sobre o período vivido pelo Brasil entre 1964 e 1985, muitos comentadores do grupo vermelho (figura 1) questionam o uso do termo “ditadura”, negando – ou relativizando –, também, os episódios de tortura e assassinatos. “Mais o professor de história militante comunista, maconheiro disse que foi ditadura!”, ironiza o comentário de 1º de outubro feito no Estadão; e “Onde foi ditadura aqui? Lembro de Governo Militar e eu e minha família estamos vivos”, publicado em 30 de julho no G1.


Leia também:

 Conversações sobre maioridade penal no Quebrando o Tabu

Eleições 2018 e conversações políticas nas redes sociais


O segundo grupo (verde), que surge em 13,2% dos textos, associa palavras como “Lula”, “esquerda”, “monstro”, “mito” e “Maria do Rosário”, mostrando que é uma classe política, moral e episódica. Nela, os comentadores misturam percepções sobre os cenários político e econômico com posicionamentos sobre questões sociais e sobre situações pontuais entre atores políticos – como o conflito entre os então deputados federais Maria do Rosário (PT-RS) e Jair Bolsonaro em 2014, quando ele disse que não a estupraria porque ela “não merecia”[2]: “Mentira que isso é palhaçada ele defende que estuprador pague caro pelo seu ato a maria do rosario defende o estuprador menor o cara foi chamado de estuprador e ele é errado de dar resposta. Se tudo que dissermos for crime isto é ditadura e a imunidade parlamentar onde fica isto.” [sic], diz comentário publicado na página de O Globo em 30 de agosto.

Os exemplos a seguir mostram como os temas sociais e econômicos foram incorporados nas conversações do grupo 2: “Povo ignorante não perceberem ainda que a previdência tá quebrada e isso querendo ou não vai prejudicar gerações futuras. Vao lá reclama com Lula e Dilma que usaram o dinheiro pra financia ditaduras” [sic], publicado em 30 de outubro na Gazeta do Povo; e “Amoedo: Apoio ao aborto Apoio a ditadura Gay Apoio aos maconheiros….kkkk” [sic], de 27 de agosto, também na GP.

 Por fim, o último grupo (azul) cobre 5,3% do corpus e articula termos como “Bolsonaro”, “Trump”, “populista” e “xenofóbico”. Nesse grupo, as conversas são, majoritariamente, sobre eleições e lideranças, tratando, em especial, da aproximação entre Bolsonaro e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. “O Trump ligou pessoalmente ontem para o Bolsonaro para parabenizá-lo. Acredito que possa ser um bom começo. O Brasil precisa de alianças com países desenvolvidos, não com ditauras comunistas como fez o PT, que só servem para mamar dinheiro do BNDES…”, feito em 29 de outubro no G1.

Considerando os resultados obtidos nesta análise, percebe-se que, ao falar sobre ditadura, os comentadores das fanpages de portais de notícias brasileiros preferiram, de maneira geral, comparar a situação do país – falando, principalmente, sobre governos e partidos de esquerda – com as conjunturas apresentadas por vizinhos latino-americanos como a Venezuela. Discutir o regime militar no Brasil não foi uma prioridade. Mas, ainda que este apareça, os exemplos já mostraram alguns indícios de apoio, o que vai ao encontro do contexto apresentado na parte introdutória do texto. Pesquisas futuras irão analisar essas conversações de forma mais aprofundada, buscando por argumentações sobre a ditadura militar brasileira e traços de radicalização em seus conteúdos.


[1] Disponível em: < https://veja.abril.com.br/politica/doze-vezes-em-que-bolsonaro-e-seus-filhos-exaltaram-e-acenaram-a-ditadura/>. Acesso em: 16 mar. 2020.

[2] Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/12/1559815-para-rebater-deputada-bolsonaro-diz-que-nao-a-estupraria.shtml>. Acesso em: 18 mar. 2020.

Referências

CERVI, E. U. Análise de Conteúdo aplicada a Redes Sociais Online. In E. U. Cervi. Manual de Métodos Quantitativos para iniciantes em Ciência Política (vol. 2). Curitiba: CPOP, 2019, p. 101-128.

DATAFOLHA. Grau de confiança nas instituições. 2018a. Disponível em: < http://media.folha.uol.com.br/datafolha/2018/06/15/e262facbdfa832a4b9d2d92594ba36eeci.pdf>. Acesso em: 16 out. 2019.

DATAFOLHA. Eleições 2018. 2018b. Disponível em: < http://media.folha.uol.com.br/datafolha/2018/10/19/8122272378b5bef5e4f32acc831fdb01DEM.pdf>. Acesso em: 16 out. 2019.

REINERT, M. Alceste, une méthodologie d’analyse des données textuelles et une application: Aurelia de Gerard de Nerval. Bulletin de Methodologie Sociologique, n. 26, p. 24-54, 1990.

REIS, D. A. Ditadura e democracia no Brasil: do golpe de 1964 à Constituição de 1988. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2014.

Tags:análise de conteúdo automatizada conversação política ditadura eleições 2018 eleições majoritárias Facebook

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